sábado, 5 de outubro de 2013

Da tipografia e outros demônios - Parte 2 de 3

Ah, sim, claro. Eu estava falando de tipografia, seus usos e abusos e dos critérios para escolha e aplicação das fontes. Espero que esta conversa esteja razoavelmente menos chata do que as aulas que eu escutei sobre isso, amiguinhos, caso contrário eu vou achar que falhei como ser humano.

As fontes são divididas em diversas categorias, o que ajuda muito quando você já tem algo em mente. Hoje em dia, porém, as categorias se expandiram e se tornou relativamente simples ter acesso a fontes de uso livre (ou de uso pago, caso se procure as fontes de aplicação profissional) e softwares (gerenciadores de fontes) para lidar com elas. As categorias se expandiram enormemente, e na prática há tantas subdivisões que é impossível alguém não achar o que procura.

Mas se você não tem muita intimidade com o tema, não se preocupe. Vamos dividir assim: Serifadas, Retas (sem serifa), Retro, Cursivas, Decorativas, Estrangeiras. Isso aqui é a base mais rasteira das divisões tipográficas (não é a mesma divisão que se aprende nos cursos formais, mas vai servir pra começar...). Não é uma divisão rígida, sendo que mais de uma vez você vai ver fontes que se enquadram em diversas categorias ao mesmo tempo, ou que não têm espaço nesta classificação. Mas vamos aos exemplos:

Quem é quem na tipografia?

Serifadas - Para começar a "serifa" é aquele cabinho que "corta" o fim da linha da letra. As fontes mais conservadoras tipo a Times New Roman, Garamond, Caslon, Palatino Linotype, etc, que são usadas em livros e publicações com textos extensos, são ditas mais confortáveis e legíveis por suas serifas e suas discretas variações de espessura, o que faz o leitor não ficar concentrado nas letras para descobrir se aquilo é um "rr" ou um "m" com falha de impressão, o que permite uma leitura praticamente automática, fluida. Porém nem todas as Serifadas têm essa pinta séria e classuda, e nem todas possuem variações na espessura da estrutura do caractere. O melhor exemplo disso é a Courier, que é Serifada mas tem linha constante, o que faz dela ligeiramente irritante para a leitura de um texto longo, por sua ausência de peso (eu posso testemunhar sobre isso: certa vez caí na besteira de imprimir um texto longo com Courier e foi um TERROR).



Retas (sem serifa) - Obviamente, as Retas são chamadas assim por não terem serifa. Acho que as mais famosas das Retas estão na internet. Veja bem, a maioria dos sites acaba indo nas fontes retas, tipo Tahoma (reza a lenda que a Tahoma é a Times New Roman sem a serifa, mas eu nunca me aprofundei tanto no assunto para afirmar...), Verdana, Lucida (tanto Console quanto Sans Unicode), Avant Garde, Calibri, e a famigerada Arial, entre outras. Você vai notar que as Retas mais populares possuem espessura constante na estrutura do caractere, mas isso também não é regra. Elas costumam passar idéia de modernidade e plasticidade, assim como um acabamento mais limpo e moderno. Na faculdade de Design, eu não desgrudava da Kabel para os trabalhos visuais.

Retro - Também chamadas Antigas. Exemplo dela é a fonte Broadway, que embora Reta também se parece com um letreiro de cinema, e tem variações notáveis na estrutura do caractere. Caem como Antigas também a Freebooter (serifada, com aparência de tipografia antiga e gasta, e com maiúsculas mais estilizadas), Caslon Antique (a mesma fonte clássica Caslon com a mesma legibilidade, mas com um acabamento de bordas irregular, o que faz lembrar o caractere de livros antigos), e a Rosewood STD Regular (que poderia estampar um título de filme de faroeste dos anos 60, ou um cartaz de circo do começo do século 20), para citar alguns exemplos. Aqui coincidem diversas tipografias de outras categorias que têm essa aparência antiga e de bordas ásperas, ou de um visual “datado”.

Cursivas - São as que imitam a linha escrita à mão. Elas geralmente são inclinadas, e algumas são floreadas, como a fonte Porcelain, ou mais simples, como a fonte English. Mas preste atenção que nem todas as chamadas cursivas têm esta configuração. Elas podem imitar uma escrita ligeira e estilizada (às vezes conhecidas na subdivisão das Scripts e Handwritings), e podem ou não ter um detalhamento elevado. As fontes de quadrinhos, como a Quadrinhos e a Anime Ace, caem como Handwritings, e têm em comum a legibilidade e o conforto, pois não "brigam" com o conteúdo dos quadrinhos, independente do estilo e nem chamam mais atenção do que eles. Nesta categoria das Cursivas, como nas outras, há fontes que se enquadram em outras descrições, como a Cezanne, que é Cursiva e imita uma escrita antiga; já a Porcelain, cursiva, tem um acabamento irregular.

Decorativas - Aqui, entre tantas subdivisões, acho que à grosso modo podemos dizer que podem ser as Fantasy e as Bullets. As Fantasy geralmente servem para escrever os títulos, são mais trabalhadas e estilosas, porém não vão muito bem em textos longos para não cansar o leitor. Eu considero como Fantasy a Shifty Chica, a Independence e a Times New Romance. O critério de uso das Fantasy é se elas dialogam com a identidade visual do que você está fazendo, sem dispensar a legibilidade. O outro tipo de fonte Decorativa que há, são aquelas fontes que ao invés de letras você tem imagens, como a Webdings e a Wingdings, que acho que são as mais famosas, mas também há as fontes com balões para quadrinhos, temáticas, barras decorativas, etc. Não subestime as Decorativas de nenhuma categoria, mas lembre-se de que elas não fazem milagres.

Estrangeiras - Estas eu posso dividir em fontes que usam caracteres estrangeiros, para a escrita específica nas línguas que usam estes alfabetos (Chinês, Japonês, Árabe, Cirílico, etc) E fontes que imitam o estilo dos caracteres estrangeiros tradicionais, mas na verdade são alfabetos ocidentais (em alguns sites são chamadas de Foreign Look). Desta segunda categoria posso citar a fonte Kremlin Alexander, que faz uma imitação do alfabeto cirílico clássico para escrita ocidental. Do mesmo estilo é a fonte Ming Imperial, que imita uma handwriting chinesa, mantendo o alfabeto que conhecemos:

É claro, tudo isso que eu citei acima não arranha sequer a superfície do que a tipografia e suas subdivisões podem ser hoje em dia, quando praticamente não se usam mais tipos que não sejam arquivos digitais, e todo dia alguém inventa ou reinventa uma fonte. E com tantas opções, precisamos de critérios para utilização.

Continua no próximo post!